A Grande Guerra - "Uma missão
especial incumbe pois à família" (Pio XII)

A boa educação
religiosa dos filhos
Sem dúvida, a comunidade
conjugal não recebeu de Cristo o mandato que faz da Hierarquia católica,
propriamente a Igreja docente, confirmada na sua missão pelo poder infalível do
Magistério romano. Sem embargo, sempre na ordem comunitária que é a ordem do
amor, os pais têm uma graça de estado como educadores. O seu casamento, como
sacramento da união de Cristo com a Igreja, confere-lhes um poder que se traduz
num dever, para eles, de orientarem os filhos que eles puseram no mundo rumo ao
seu fim último, Cristo, o Deus Trino. Se não receássemos desvalorizar termos
sagrados aos quais se deve deixar toda a sua significação, a propósito desse
poder conviria falar de "sacerdócio particular", sacerdócio que aliás
depende dos leigos batizados e confirmados, com isto a mais no entanto: que o
casamento abre aos pais, sem outra delegação, uma jurisdição própria sobre
esses pequenos seres nascidos da sua união de graça.
Essa função é tão
pessoal, ou, pelo menos, tão inerente à condição dos pais, que a Igreja jamais
passará por cima da vontade destes para batizar ou iniciar a instrução
religiosa de seus filhos, a menos que estes, tendo atingido a idade de
discrição, manifestem querer e poder perseverar.
A experiência demonstra,
com efeito, que nada iguala nem substitui a primeira educação religiosa do
filho pela família. Aliás, por essa educação religiosa cumpre entender não
somente as explicações orais dadas pela mãe e pelo pai a seus filhos, mas
também e sobretudo o exemplo das suas virtudes, a ambiência da sua fé, da sua
esperança e da sua caridade. A primeira educação da personalidade opera-se, com
efeito, por impregnação. Coisa que fazia Pio XI dizer que, se "a educação
é necessariamente obra do homem em sociedade, e não do homem isolado", e
se para este fim três sociedades se perfilam para cumprirem semelhante tarefa:
a família, a Igreja e o Estado, todavia é à família que cabe o reivindicar
sozinha o direito de primeira animação, visto ser ela "o primeiro meio natural
e necessário à educação", e visto haver sido ela "precisamente
destinada a esse fim pelo Criador".
Passada essa primeira
fase em que a educação total de seus filhos compete como própria aos pais,
estes últimos conservam "a gravíssima obrigação de velar, segundo todo o
seu poder, pela educação tanto religiosa e moral quanto física e cívica de seus
filhos" (c. 1113). Por essa forma eles colaboram imediatamente nas tarefas
da Igreja docente, proporcionando a esta uma eficácia que, sem o apoio deles,
quase se não poderia esperar dela, pois, como o afirma Pio XII, "sem a boa
educação religiosa dos filhos, o Corpo místico estaria exposto aos mais graves
perigos". Ao contrário, "enquanto no lar doméstico brilhar a chama
santa da fé em Jesus Cristo, enquanto os pais se empregarem em formar e em
modelar a vida de seus filhos conformemente a essa fé, a juventude estará
sempre pronta a reconhecer o Redentor em suas prerrogativas régias, e a se opor
àqueles que quiserem bani-lO da sociedade ou violar sacrilegamente os seus direitos"
(Pio XII, Summi Pontiiicatus, n. 89).
Necessidade de uma
espiritualidade conjugal
Vê-se o quanto importa
que os esposos cristãos sejam, para semelhantes tarefas, animados de uma
verdadeira espiritualidade de lar militante cristão.
Na sua vida íntima, a sua
união é para eles instrumento de graças transformantes, o seu casamento uma
vocação e um estado de santidade... Citemos somente felizes realizações na
ordem da vida religiosa familiar: oração da noite em comum, leitura da Bíblia, preparação
e assistência coletiva à missa do domingo, etc. Muitos pais procuram tomar a
seus filhos o sentido cristão das horas familiares: horas quotidianas, tais
como as refeições, as vigílias, os trabalhos, os lazeres; horas excepcionais
como os nascimentos, as doenças, os lutos. Procuram eles assim criar uma
atmosfera cristã por uma decoração e por um arranjo apropriado da casa...
Sumário
Com o sacramento da
Ordem, o matrimônio é destinado a prover às necessidades orgânicas e sociais da
Igreja, a tal ponto que a missão conjugal aparece como que complementar da
missão hierárquica conferida ao sacerdócio. Com efeito, se a hierarquia,
constituída pelo sacramento da Ordem e investida dos próprios poderes de
Cristo, "batiza, ensina, governa, liga, desliga, oferece, sacrifica, e
assim provê diretamente à comunicação da vida de Cristo e ao governo do povo
cristão, a comunidade conjugal, por seu lado, em virtude do sacramento que lhe
confere uma presença especial de Cristo e da Igreja, possui o privilégio de criar
um meio de graça santificante, e de assim provar ao "incremento exterior e
ordenado da comunidade cristã".
Bem mais, tem ela missão,
poder e graça de estado para orientar positivamente, pela obra da educação, os
filhos que ela pôs no mundo, rumo ao seu fim último, Cristo, o Deus Trinitário.
Cumpre ela assim uma obra estreitamente ligada à obra sacerdotal, e representa,
na missão redentora e santificadora da Igreja, o auxílio indispensável que o
Corpo traz à Cabeça.
A comunidade conjugal
tem, assim, o seu lugar marcado na Igreja.
Tais sendo as coisas,
vê-se o quanto importa que os esposos cristãos sejam, para semelhantes tarefas,
animados de verdadeira espiritualidade conjugal e familiar, a fim de que, na
sua vida íntima, a sua união seja verdadeiramente, para eles, instrumento de
graças transformantes, e que, na sua vida social, ela seja para o seu lar um
princípio de irradiação apostólica.
(Excerto
de Código familiar, síntese doutrinária - Fundada em Malines em 1920 sob a
presidência do Cardeal Mercier)
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