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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Santa Missa na solenidade da Epifania do Senhor, homilia do Santo Padre Bento XVI


HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Basílica Vaticana
Domingo, 6 de Janeiro de 2013

Amados irmãos e irmãs!
Para a Igreja crente e orante, os Magos do Oriente, que, guiados pela estrela, encontraram o caminho para o presépio de Belém, são apenas o princípio duma grande procissão que permeia a história. Por isso, a liturgia lê o Evangelho que fala do caminho dos Magos juntamente com as estupendas visões proféticas de Isaías 60 e do Salmo 72 que ilustram, com imagens ousadas, a peregrinação dos povos para Jerusalém. Assim como os pastores – os primeiros convidados para irem até junto do Menino recém-nascido deitado na manjedoura – personificam os pobres de Israel e, em geral, as almas simples que interiormente vivem muito perto de Jesus, assim também os homens vindos do Oriente personificam o mundo dos povos, a Igreja dos gentios: os homens que, ao longo de todos os séculos, se encaminham para o Menino de Belém, n’Ele honram o Filho de Deus e se prostram diante d’Ele. A Igreja chama a esta festa «Epifania» – a manifestação do Divino. Se considerarmos o fato de que desde então homens de todas as proveniências, de todos os continentes, das mais diversas culturas e das diferentes formas de pensamento e de vida se puseram, e estão, a caminho de Cristo, podemos verdadeiramente dizer que esta peregrinação e este encontro com Deus na figura do Menino é uma Epifania da bondade de Deus e do seu amor pelos homens (cf. Tt 3, 4).

 Seguindo uma tradição iniciada pelo Beato Papa João Paulo II, celebramos a festa da Epifania também como dia da Ordenação episcopal de quatro sacerdotes que daqui em diante irão colaborar, em diferentes funções, com o Ministério do Papa em prol da unidade da única Igreja de Jesus Cristo na pluralidade das Igrejas particulares. A conexão entre esta Ordenação episcopal e o tema da peregrinação dos povos para Jesus Cristo é evidente. O Bispo tem a missão não apenas de se incorporar nesta peregrinação juntamente com os demais, mas de ir à frente e indicar a estrada. Nesta liturgia, porém, queria refletir convosco sobre uma questão ainda mais concreta. Com base na história narrada por Mateus, podemos certamente fazer uma ideia aproximada do tipo de homens que, seguindo o sinal da estrela, se puseram a caminho para encontrar aquele Rei que teria fundado uma nova espécie de realeza, e não só para Israel mas para a humanidade inteira. Que tipo de homens seriam então eles? E perguntemo-nos também se a partir deles, não obstante a diferença dos tempos e das funções, seja possível vislumbrar algo do que é o Bispo e de como deve ele cumprir a sua missão.

Os homens que então partiram rumo ao desconhecido eram, em definitiva, pessoas de coração inquieto; homens inquietos movidos pela busca de Deus e da salvação do mundo; homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social provavelmente considerável, mas andavam à procura da realidade maior. Talvez fossem homens eruditos, que tinham grande conhecimento dos astros e, provavelmente, dispunham também duma formação filosófica; mas não era apenas saber muitas coisas que queriam; queriam sobretudo saber o essencial, queriam saber como se consegue ser pessoa humana. E, por isso, queriam saber se Deus existe, onde está e como é; se Se preocupa conosco e como podemos encontrá-Lo. Queriam não apenas saber; queriam conhecer a verdade acerca de nós mesmos, de Deus e do mundo. A sua peregrinação exterior era expressão deste estar interiormente a caminho, da peregrinação interior do seu coração. Eram homens que buscavam a Deus e, em última instância, caminhavam para Ele; eram indagadores de Deus.

Chegamos assim à questão: Como deve ser um homem a quem se impõem as mãos para a Ordenação episcopal na Igreja de Jesus Cristo? Podemos dizer: deve ser, sobretudo um homem cujo interesse se dirige para Deus, porque só então é que ele se interessa verdadeiramente também pelos homens. E, vice-versa, podemos dizer: um Bispo deve ser um homem que tem a peito os outros homens, que se deixa tocar pelas vicissitudes humanas. Deve ser um homem para os outros; mas só poderá sê-lo realmente, se for um homem conquistado por Deus: se, para ele, a inquietação por Deus se tornou uma inquietação pela sua criatura, o homem. Como os Magos do Oriente, também um Bispo não deve ser alguém que se limita a exercer o seu ofício, sem se importar com mais nada; mas deve deixar-se absorver pela inquietação de Deus com os homens. Deve, por assim dizer, pensar e sentir em sintonia com Deus. Não é apenas o homem que tem em si a inquietação constitutiva por Deus, mas esta inquietação é uma participação na inquietação de Deus por nós. Foi por estar inquieto conosco que Deus veio atrás de nós até à manjedoura; mais: até à cruz. «A buscar-me Vos cansastes, pela Cruz me resgatastes: tanta dor não seja em vão!»: reza a Igreja no Dies irae. A inquietação do homem por Deus e, a partir dela, a inquietação de Deus pelo homem não devem dar tréguas ao Bispo. É isto que queremos dizer, ao afirmar que o Bispo deve ser sobretudo um homem de fé; porque a fé nada mais é do que ser interiormente tocado por Deus, condição esta que nos leva pelo caminho da vida. A fé atrai-nos para dentro de um estado em que somos arrebatados pela inquietação de Deus e faz de nós peregrinos que estão interiormente a caminho para o verdadeiro Rei do mundo e para a sua promessa de justiça, de verdade e de amor. Nesta peregrinação, o Bispo deve ir à frente, deve ser aquele que indica aos homens a estrada para a fé, a esperança e o amor.
 
A peregrinação interior da fé para Deus realiza-se sobretudo na oração. Santo Agostinho disse certa vez que a oração, em última análise, nada mais seria do que a actualização e a radicalização do nosso desejo de Deus. No lugar da palavra «desejo», poderíamos colocar também a palavra «inquietação» e dizer que a oração quer arrancar-nos da nossa falsa comodidade, da nossa clausura nas realidades materiais, visíveis, para nos transmitir a inquietação por Deus, tornando-nos assim abertos e inquietos uns para com os outros. O Bispo, como peregrino de Deus, deve ser sobretudo um homem que reza, deve estar em permanente contacto interior com Deus; a sua alma deve estar aberta de par em par a Deus. As dificuldades suas e dos outros bem como as suas alegrias e as dos demais deve levá-las a Deus e assim, a seu modo, estabelecer o contacto entre Deus e o mundo na comunhão com Cristo, para que a luz de Cristo brilhe no mundo.

Voltemos aos Magos do Oriente. Eles eram também e sobretudo homens que tinham coragem; tinham a coragem e a humildade da fé. Era preciso coragem a fim de acolher o sinal da estrela como uma ordem para partir, para sair rumo ao desconhecido, ao incerto, por caminhos onde havia inúmeros perigos à espreita. Podemos imaginar que a decisão destes homens tenha provocado sarcasmo: o sarcasmo dos ditos realistas que podiam apenas zombar das fantasias destes homens. Quem partia baseado em promessas tão incertas, arriscando tudo, só podia aparecer como ridículo. Mas, para estes homens tocados interiormente por Deus, era mais importante o caminho segundo as indicações divinas do que a opinião alheia. Para eles, a busca da verdade era mais importante que a zombaria do mundo, aparentemente inteligente.

Vendo tal situação, como não pensar na missão do Bispo neste nosso tempo? A humildade da fé, do crer juntamente com a fé da Igreja de todos os tempos, há-de encontrar-se, vezes sem conta, em conflito com a inteligência dominante daqueles que se atêm àquilo que aparentemente é seguro. Quem vive e anuncia a fé da Igreja encontra-se em desacordo também em muitos aspectos, com as opiniões dominantes precisamente no nosso tempo. O agnosticismo, hoje largamente imperante, tem os seus dogmas e é extremamente intolerante com tudo o que o põe em questão, ou põe em questão os seus critérios. Por isso, a coragem de contradizer as orientações dominantes é hoje particularmente premente para um Bispo. Ele tem de ser valoroso; e esta valentia ou fortaleza não consiste em ferir com violência, na agressividade, mas em deixar-se ferir e fazer frente aos critérios das opiniões dominantes. A coragem de permanecer firme na verdade é inevitavelmente exigida àqueles que o Senhor envia como cordeiros para o meio de lobos. «Aquele que teme o Senhor nada temerá», diz Ben Sirá (34, 14). O temor de Deus liberta do medo dos homens; faz-nos livres!

Neste contexto, recordo um episódio dos primórdios do cristianismo que São Lucas narra nos Atos dos Apóstolos. Depois do discurso de Gamaliel, que desaconselha a violência contra a comunidade nascente dos crentes em Jesus, o Sinédrio convocou os Apóstolos e fê-los flagelar. Depois proibiu-os de pregar em nome de Jesus e pô-los em liberdade. São Lucas continua: Os Apóstolos «saíram da sala do Sinédrio cheios de alegria por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus. E todos os dias (...) não cessavam de ensinar e de anunciar a Boa-Nova de Jesus, o Messias» (Act 5, 41-42). Também os sucessores dos Apóstolos devem esperar ser, repetidamente e de forma moderna, flagelados, se não cessam de anunciar alto e bom som a Boa-Nova de Jesus Cristo; hão de então alegrar-se por terem sido considerados dignos de sofrer ultrajes por Ele. Naturalmente queremos, como os Apóstolos, convencer as pessoas e, neste sentido, obter a sua aprovação; naturalmente não provocamos, antes, pelo contrário, convidamos todos a entrarem na alegria da verdade que indica a estrada. Contudo o critério ao qual nos submetemos não é a aprovação das opiniões dominantes; o critério é o próprio Senhor. Se defendemos a sua causa, conquistaremos incessantemente, pela graça de Deus, pessoas para o caminho do Evangelho; mas inevitavelmente também seremos flagelados por aqueles cujas vidas estão em contraste com o Evangelho, e então poderemos ficar agradecidos por sermos considerados dignos de participar na Paixão de Cristo.
 
Os Magos seguiram a estrela e assim chegaram a Jesus, à grande Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem (cf. Jo 1, 9). Como peregrinos da fé, os Magos tornaram-se eles mesmos estrelas que brilham no céu da história e nos indicam a estrada. Os santos são as verdadeiras constelações de Deus, que iluminam as noites deste mundo e nos guiam. São Paulo, na Carta aos Filipenses, disse aos seus fiéis que devem brilhar como astros no mundo (cf. 2, 15).

Queridos amigos, isto diz respeito também a nós. Isto diz respeito sobretudo a vós que ides agora ser ordenados Bispos da Igreja de Jesus Cristo. Se viverdes com Cristo, ligados a Ele novamente no Sacramento, então também vós vos tornareis sábios; então tornar-vos-eis astros que vão à frente dos homens e indicam-lhes o caminho certo da vida. Neste momento, todos nós aqui rezamos por vós, pedindo que o Senhor vos encha com a luz da fé e do amor, que a inquietação de Deus pelo homem vos toque, que todos possam experimentar a sua proximidade e receber o dom da sua alegria. Rezamos por vós, para que o Senhor sempre vos dê a coragem e a humildade da fé. Rezamos a Maria, que mostrou aos Magos o novo Rei do mundo (cf. Mt 2, 11), para que, como Mãe amorosa, mostre Jesus Cristo também a vós e vos ajude a serdes indicadores da estrada que leva a Ele. Amen.

© Copyright 2013 - Libreria Editrice Vaticana

Os reis-magos, homens de diálogo em busca da verdade


Nota do diretor do Blog: Agradecemos profundamente mais uma vez ao nosso grande amigo, Padre Anderson que nos cedeu generosamente este artigo. Que Deus o dê força para continuar com esse grande ardor catequético e este tão fecundo apostolado sinal de um amor profundo à Igreja.  

Reflexões para o ano de fé
Pe. Anderson Alves

ROMA, Monday, 7 January 2013 (Zenit.org).

Estamos vivendo o ano da fé, no qual somos convidados a conhecer melhor a nossa fé, a fim de vivê-la mais intensamente. Para isso, é indispensável a oração, a caridade fraterna e também o estudo. Para isso, o Papa insistentemente nos propõe o Catecismo da Igreja Católica, verdadeira obra prima do século XX, que expõe de modo ordenado e claro os principais conteúdos da fé cristã. Outra grande ajuda para crescer no conhecimento de Cristo nesse ano é certamente o Magistério do Papa Bento XVI e o seu livro sobre a infância de Jesus. Nesses textos encontramos reflexões extraordinárias sobre os magos do Oriente que foram adorar o Senhor recém-nascido. Esses personagens foram verdadeiros peregrinos na fé e podem ser luzes para o nosso caminho. As reflexões do Papa sobre os magos são muito ricas e aqui queremos nos centrar num ponto: eles eram verdadeiros homens de diálogo e por esse meio chegaram a conhecer e a anunciar Jesus Cristo.

Certamente, em primeiro lugar nos vêm à mente o diálogo deles com os líderes de Israel em Jerusalém, quando a estrela que os guiava momentaneamente se ocultou. Imaginemos a grande surpresa que tiveram ao saber que no palácio real não havia ninguém que estivesse para dar a luz. Então os sacerdotes e escribas, conhecedores das Sagradas Escrituras, disseram-lhes que o rei dos judeus deveria nascer na desconhecida Belém, a cidade do pão. Aqueles homens buscaram o rei dos judeus no lugar justo e, não o encontrando, deixaram-se conduzir pelo diálogo com os sábios. E isso lhes levaria ao encontro de Cristo.

Mas mesmo antes dessa cena o diálogo era o que guiava a vida daqueles homens. A Bíblia nos diz que eles eram homens de fé e também de ciência. Provavelmente eram astrônomos orientais, que observavam as estrelas procurando ler nelas os sinais de Deus. Utilizavam a própria razão na busca do Criador. Na alma deles essas duas capacidades humanas, fé e razão, estavam sempre em diálogo, em busca de uma perfeita harmonia.

O Papa Bento XVI no seu livro diz que esses eram homens que tinham uma grande inquietação interior que os levou a sair de si mesmos. Eles eram o que na Antiguidade se chamava filósofos, ou seja, pessoas que buscavam a verdadeira sabedoria por todos os caminhos possíveis: a obra da criação, o saber científico, a filosofia, as religiões. O que o coração deles realmente desejava era a sabedoria: explicar o porquê do mundo e encontrar um sentido para a própria vida. E, buscando a sabedoria, eles seguiam o caminho aberto por Sócrates que, através do diálogo, procurava responder a pergunta sobre o que é o homem, indo além das religiões oficiais.

Os reis magos seguiram a estrada de Sócrates, ou seja, utilizaram a própria razão para procurar as respostas fundamentais sobre o mundo e a vida por meio do dialogo. A razão humana (logos) é, de fato, uma potência para o encontro com os outros, algo que une o que estava separado: dia-logos.

Num discurso à Universidade Sapienza de Roma em 2008, o Papa disse que a pergunta socrática sobre o homem foi o impulso que deu origem à Universidade ocidental, na qual se buscava harmonizar fé e a razão[1]. De fato, é extraordinário pensar que o método de ensino naquelas instituições era o mesmo método socrático: o diálogo. Esses eram posteriormente transcritos, em forma de questões (quaestio), dando origem às chamadas Sumas e Questões disputadas. Naqueles textos, que hoje podem parecer frios, estava condensado o ideal socrático: descobrir a verdade sobre Deus, sobre o mundo e sobre o homem, por meio do diálogo. E participavam do diálogo não só os ensinamentos bíblicos, dos Padres da Igreja e doutores eclesiásticos, mas também os filósofos gregos, judeus e muçulmanos. Todos participavam no diálogo cultural com o único objetivo de conhecer e dar a conhecer a verdade.
Pe. Anderson Alves

 Atualmente há quem diga que o monoteísmo é uma ameaça à paz mundial, porque a pretensão de haver uma verdade absoluta levaria à intolerância para com quem não professa a mesma fé e destruiria a possibilidade do diálogo, o que evidentemente é um absurdo, também desde o ponto de vista histórico.

Certa vez o Papa lembrou-nos uma afirmação de São Tiago: «Sois gerados por meio de uma palavra de verdade» (1,18). E dizia que hoje a ideia de verdade e de intolerância estão quase completamente fundidas entre si, de modo que não ousamos mais crer ou falar da verdade. Essa deve parecer sempre como algo distante, a qual é melhor não recorrer. Por isso, ninguém poderia dizer: «tenho a verdade». E o Papa dizia que é justo que ninguém pode dizer que tem a verdade, porque a verdade é algo vivo, é uma pessoa, e é ela que nos possui. Não somos os seus detentores, mas seus servidores, na medida em que somos atraídos por ela. Assim como devemos aprender a esse «não-ter-a-verdade», os pais devem aprender a não dizer: «tenho filhos»; pois os filhos não são uma posse, mas um dom, uma dádiva de Deus e uma tarefa[2].

Os magos buscaram a verdade, seguindo o caminho do diálogo, que era o mesmo de Sócrates e também de Abraão, que, ao ser interpelado por Deus, saiu de sua pátria, de si mesmo, o que implica sacrifícios. Para os magos, a peregrinação exterior terminou no encontro com o Rei dos judeus que nasceu como uma pobre criança e aí iniciava uma nova peregrinação para eles: aquela Revelação da verdade de Deus era uma luz nova que lhes abria horizontes novos de existência e que devia ser comunicada.

Portanto, pode-se conhecer a verdade sobre Deus, sobre a fé, sem que essa verdade seja total, mas uma luz nova que guia a nossa vida e que vai aos poucos iluminando nossa existência. Conhecer a verdade não significa possuí-la totalmente e muito menos querer impô-la. Mas é o início de uma nova estrada que nos ilumina e pode iluminar, por meio do diálogo, a quem tem o coração inquieto. «O novo Rei, diante do qual se tinham prostrado em adoração, diferenciava-se muito da expectativa deles. Começou assim o seu caminho interior. Começou no mesmo momento em que se prostraram diante deste menino e o reconheceram como o Rei prometido. Mas eles ainda tinham que alcançar interiormente estes gestos jubilosos. Deviam mudar a ideia que tinham acerca do poder, de Deus e do homem e, fazendo isto, deviam também eles mesmos mudar»[3].

* Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[1] PAPA BENTO XVI, Discurso para o encontro na Universidade de Roma "La Sapienza". Disponível em:


[3] IDEM, Vigília de oração com os jovens na esplanada de Marienfeld, discurso do Papa Bento XVI,em20 de Agosto de 2005. Disponível em:

domingo, 6 de janeiro de 2013

O Senhor deu a conhecer a salvação ao mundo inteiro


Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermo 3 in Epiphania Domini, 1-3.5: PL 54,240-244)
(Séc. V)

Tendo a misericordiosa Providência de Deus decidido vir nos últimos tempos em socorro do mundo perdido, determinou salvar todos os povos em Cristo.

Esses povos formam a incontável descendência outrora prometida ao santo patriarca Abraão; descendência gerada não segundo a carne, mas pela fecundidade da fé, e por isso comparada à multidão das estrelas, para que o pai de todos os povos esperasse uma posteridade celeste e não terrestre.

Entrem, pois, todos os povos, entrem na família dos patriarcas, e recebam os filhos da promessa a benção da descendência de Abraão, à qual renunciaram os filhos segundo a carne. Que todos os povos, representados pelos três Magos, adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte o seu nome seja grande em Israel (Sl 75,2).

Portanto, amados filhos, instruídos nos mistérios da graça divina, celebremos com alegria espiritual o dia das nossas primícias e do primeiro chamado dos povos pagãos à fé, dando graças a Deus misericordioso que, conforme diz o Apóstolo, nos tornou capazes de participar da luz que é a herança dos santos; ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no reino de seu amado Filho (Cl 1,12-13). Pois, como anunciou Isaías, o povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu (Is 9,1). E ainda referindo-se a eles, o mesmo profeta diz ao Senhor: Nações que não vos conheciam vos invocarão e povos que vos ignoravam acorrerão a vós (cf. Is 55,5).

Esse dia, Abraão viu e alegrou-se (Jo 8,56) ao saber que seus filhos segundo a fé seriam abençoados na sua descendência, que é Cristo, e ao prever que, por sua fé, seria pai de todos os povos. E deu glória a Deus, plenamente convencido de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu (Rm 4,20-21).

Esse dia, também Davi cantou nos salmos, dizendo: As nações que criastes virão adorar, Senhor, e louvar vosso nome (Sl 85,9). E ainda: O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça (Sl 97,2).

Como sabemos, tudo isso se realizou quando os três Magos, chamados de seu longínquo  país, foram conduzidos por uma estrela, para irem conhecer e adorar o Rei do céu e da terra. O serviço prestado por esta estrela nos convida a imitar sua obediência, isto é, servir com todas as forças essa graça que nos chama todos para Cristo.

Animados por esse desejo, amados filhos, deveis empenhar-vos em ser úteis uns aos outros, para que no reino de Deus, aonde se entra graças à integridade da fé e às boas obras, resplandeçais como filhos da luz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo por todos os séculos dos séculos.


sábado, 5 de janeiro de 2013

A Educação da Criança


Papa Pio XII

            Nosso espírito vê as inumeráveis fileiras de adolescentes, que como botões se abrem às primeiras luzes da aurora. Prodigioso e encantador é este pulular de juventude em uma geração que pareceu condenada a desaparecer; juventude nova, fremente em sua pujança e em seu vigor, olhos fixos no futuro, e com incoercível impulso para metas mais elevadas, resolvida a melhorar o passado, a assegurar conquistas mais sólidas e de maior vulto no caminho do homem sobre a terra. Desta irrefreável e perene corrente para a perfeição humana, dirigida e guiada pela Divina Providência, os educadores são os orientadores e os responsáveis mais diretos, à mesma Providência associados, para dela realizar os desígnios. Deles depende em grande parte se a corrente da civilização avança ou vai para trás, se reforça seu ímpeto ou languesce na inércia, se vai direta para a foz, ou, pelo contrário se deleita ainda que momentaneamente, em vãos acessórios, ou pior ainda em meandros malsãos e pantanosos.

Nós mesmo, por disposição divina, Vigário, e portanto investido dos mesmos ofícios daquele que sobre a terra amou ser chamado “Mestre”, Nós mesmo nos incluímos no número dos que representam em várias medidas a mão da Providência no conduzir o homem ao seu termo prefixado.  

Não é talvez esta Nossa Sé principalmente uma Cátedra? Não e nosso primeiro encargo o Magistério? Não deu o divino Mestre e Fundador da Igreja a Pedro e aos Apóstolos o fundamental preceito: ensinar, preparar discípulos?

Nós nos sentimos educadores de almas, e de fato o somos; a Igreja e sublime escola, e não em um grau secundário de importância, pois, que boa parte do ofício sacerdotal consiste em ensinar, e educar. Nem podia ser diversamente em a nova ordem instaurada por Cristo, que se fundamenta totalmente sobre as relações de paternidade de Deus, da qual deriva toda outra paternidade no céu, e sobre a terra, e da qual, em Cristo e por Cristo proclama a Nossa paternidade para com todas as almas. Ora quem é pai, é por isto mesmo educador, porque, como luminosamente explica o Doutor Angélico, o primordial direito pedagógico, não se apeia sobre outro título senão da paternidade.  

Imensa é a responsabilidade da qual participam, ao mesmo tempo, embora em grau diverso, mas não em campo totalmente separado: responsabilidade das almas, da civilização, do aperfeiçoamento e da felicidade do homem sobre a terra e nos céus.

Se, neste momento, trouxemos o discurso sobre um terreno mais vasto, qual o da educação, fizemo-lo pensando que já se pode dizer superada, ao menos em linha de máxima, a errônea doutrina que separava a formação da inteligência da do coração. Devemos antes deplorar que nos últimos anos fossem ultrapassados os limites do justo interpretar as normas que identificam o que ensina o educador, escola e vida. Reconhecido à escola, o potente valor formativo das consciências, alguns estados, regimes e movimentos políticos aí descobriram um dos meios mais eficazes de ganhar para suas causas aquelas multidões de adeptos, de que tem necessidade para fazer triunfar determinadas concepções de vida. Com uma tática tão astuta quanto insincera, e por escopos em contraste com os próprios fins naturais da educação, alguns destes movimentos do passado e do presente século pretenderam subtrair a escola à égide das instituições que tinham, além do estado, um primordial direito - a família e a Igreja - e tentaram ou tentam apossar-se delas exclusivamente, impondo um monopólio, que é gravemente lesivo a uma das fundamentais liberdades humanas.

Mas esta Sé de Pedro, escolta vígil do bem das almas e do verdadeiro progresso, como não abdicou jamais no passado este essencial direito, admiravelmente e em todos os tempos exercitado mediante suas instituições, que foram as únicas a se dedicarem a isto, assim não abdicará no futuro, nem por esperanças de vantagens terrenas, nem por temor de perseguições. Ela não consentirá jamais que sejam destituídas do efetivo exercício de seus nativos direitos nem a Igreja, que o tem por mandamento divino, nem a família que o reivindica por natural justiça. Os fiéis de todo o mundo são testemunhos da firmeza desta Sé Apostólica em propugnar a liberdade da escola em muitos países, em diversas circunstâncias e para muitos homens. Pela escola, bem como pelo culto e pela santidade do matrimônio, Ela não hesitou em enfrentar as dificuldades e perigos, com a tranquila consciência de quem serve uma causa justa, santa, querida por Deus, e com a certeza de prestar um serviço inestimável à própria sociedade civil.

Nos países, pois, nos quais a liberdade da escola é garantida por justas leis, cabe aos mestres saber valer-se efetivamente disto, exigindo a concreta aplicação das mesmas.

Se é ótima regra entesourar sistemas e métodos corroborados pela experiência, ocorre avaliar com todo cuidado, antes de aceitá-las, as teorias e os usos das modernas escolas pedagógicas. Nem sempre, realmente, os bons sucessos, talvez obtidos em países por índole de população e grau de cultura diversos do nosso, dão suficiente garantia para que aquelas doutrinas possam ser aplicadas sem distinção em toda parte.

A escola não pode ser comparada a um laboratório químico, onde o risco de desperdiçar substâncias mais ou menos custosas é compensado pela probabilidade de uma descoberta: na escola para cada alma entra em jogo a salvação ou a ruína. As inovações, portanto, que se julgarão oportunas, dirão respeito à escolha de meios e orientações pedagógicas secundárias, permanecendo inabaláveis o fim e os meios substanciais, que serão sempre os mesmos, como sempre idêntico é o fim último da educação, o seu sujeito, o seu principal autor e inspirador, que é Deus Nosso Senhor.

O educador que se inspira na paternidade, cujo escopo é gerar seres semelhantes a si, o que ensina, não somente com os preceitos, mas também com o exemplo, formará os alunos para a vida. Em caso contrário, sua obra será, para dizer com Sto. Agostinho, "bazar de palavras" e não modeladora de almas. Os próprios ensinamentos morais não atingem, senão superficialmente, os espíritos, se não são corroborados pelos atos. Nem mesmo a exposição das disciplinas meramente escolares é plenamente assimilada pelos jovens, se não brota dos lábios do professor como viva expressão pessoal: nem o Latim, nem o Grego, nem a História, ainda menos a Filosofia serão recebidos pelos alunos com proveito, quando apresentados sem entusiasmo, como coisas estranhas à vida e ao interesse de quem ensina.

Educadores de hoje, que do passado tiraram normas seguras, que ideais para os homens deveis preparar, visando o futuro?

Encontrá-los-eis fundamentalmente delineados no cristão perfeito. E dizendo perfeito cristão, entendemos aludir ao cristão de hoje, homem de seu tempo, conhecedor e cultor de todos os progressos trazidos pela ciência e pela técnica, cidadão não estranho à vida que se desenvolve hoje, em sua terra. O mundo não se arrependerá, se um número sempre maior de tais cristãos entrar em todos os graus da vida pública e privada. Cabe, em grande escala aos que ensinam predispor a esta benéfica imissão, orientando os espíritos dos discípulos a descobrirem as inexauríveis energias do cristianismo na obra de melhoramento e de renovação dos povos.

O nosso tempo quer que a mente dos alunos seja endereçada para um sentido de justiça mais efetiva, sacudindo suas inatas tendências de se considerarem eles uma casta privilegiada e de temerem o trabalho e dele se esquivarem. Sintam-se e sejam de fato trabalhadores já hoje, no cumprimento perfeito dos deveres escolares, como deverão ser amanhã nos cargos dirigentes da sociedade. É verdade que nos povos atormentados pelo flagelo da desocupação as dificuldades surgem não tanto pela falta de bons valores, mas pela falta de trabalho; continua, entretanto, sempre indispensável que os que ensinam inculquem a laboriosidade a seus discípulos. Habituem-se portanto estes ao severo trabalho de disciplinar o intelecto, e do trabalho aprenderão a suportar a dureza e a necessidade, para que somente assim possam gozar os direitos da vida associada, com o mesmo título que os trabalhadores braçais. É já tempo de se alargarem as vistas sobre um mundo menos obstaculado por facções reciprocamente invejosas, por nacionalismos exagerados sequiosos de hegemonia, pelo que tanto sofreram as gerações presentes. Abra-se à nova juventude a respiração da catolicidade, e sinta-se o fascínio daquela caridade universal que abraça todos os povos no único Senhor; a consciência da própria personalidade, e portanto do maior tesouro da liberdade, a sã crítica; e ao mesmo tempo o sentido da humildade cristã, da justa sujeição, à lei e aos deveres de solidariedade. Religiosos, honestos, cultos, abertos e operosos - queríamos que assim os jovens saíssem das escolas (1).

1-      Discurso, Ação Católica, 4 de setembro, 1949.

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos.