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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Paix Liturgique: Experiência de paróquia que celebra tanto a forma ordinária como aquela extraordinária do Rito Romano


A participação da Paix Liturgique na conferência Sacra Liturgia de 2015, no início de Junho, em Nova Iorque, foi ocasião para descobrir a única paróquia de Manhattan que todos os dias oferece tanto a Forma Ordinária do Rito Romano como aquela Extraordinária: a paróquia dos Santos Inocentes (“Holy Innocents”), situada na 37th Street West, a dois passos da Broadway. O pároco, o Pe. Leonard F. Villa, nomeado em dezembro de 2014, dispôs-se a no-la descrever e a dar o testemunho da sua experiência de aplicação serena e generosa do motu proprio Summorum Pontificum.


I – Uma paróquia em plena renovação

Erigida em 1868, na parte sul de Manhattan, no coração do que era outrora a Pigalle nova-iorquina, e passando depois a ser considerada o "Garment district" (o quarteirão dos tecidos e da moda), a paróquia dos Santos Inocentes, há muito que ganhou a fama de ser a paróquia dos atores, dada a sua proximidade dos teatros da Broadway. Tendo a frequência dominical decaído no entretanto, já que se trata de um quarteirão de espetáculos e comercial, mais do que residencial, viu-se a braços nos tempos mais recentes com a ameaça da extinção, por ocasião de um plano de reestruturação diocesana. Mas eis que, de repente, o arcebispo de Nova Iorque, o Cardeal Dolan, se viu confrontado com o renascimento da paróquia desde que se abriu à forma extraordinária do rito romano em 2009-2010. De facto, desde então, a frequência das missas dominicais triplicou. Foi aí que o arcebispo não apenas confirmou o seu estatuto paroquial, como até lhe deu um novo pároco, já que era desde 2013 que a paróquia estava desprovida de um.

A igreja neogótica, construída em 1870, tem por principal atração o afresco do retábulo representando a Crucifixão, pintado por Costantino Brumidi, o artista que decorou o interior da Cúpula do Capitólio de Washington. Este afresco recuperou todo o seu esplendor em 2013, após a sua restauração, encomendada pelo Pe. Kallumady, pároco dos Santos Inocentes entre 2007 e 2013. Foi este sacerdote ordenado em 1973 na Índia, seu país de origem, que introduziu a liturgia tradicional na paróquia, o que explicou deste modo durante uma entrevista concedida à revista diocesana: "Dado que se trata de uma paróquia de gente dos arredores, que aí acorrem apenas durante a semana, estava à procura de uma comunidade que pudesse preencher os domingos, e foi aí que me virei para os fiéis ligados à liturgia tradicional. A experiência foi boa, e agora temos uma centena de fiéis que assistem todos os domingos à missa em latim. São muito ativos e participam em todas as atividades da paróquia, mesmo vindo de longe, e com alguns, que até vêm de Long Island. Todos eles são bem-vindos, e isto contribui para a originalidade da paróquia."

Depois da saída do Pe. Kallumady, a paróquia foi administrada pelo Pe. Rutler, um famoso pregador e evangelizador nova-iorquino, que, estando familiarizado com a liturgia tradicional, consolidou a renovação que se havia começado, e assim até à nomeação do Pe. Villa no Inverno passado. Depois de alguns anos passados no Exército e ao serviço dos sem-abrigo e de alcoólicos em Nova Iorque, o Pe. Villa esteve ao serviço de uma paróquia durante 22 anos, em Yonkers, um município limítrofe do Bronx, onde já havia introduzido a forma extraordinária do rito romano logo desde 14 de setembro de 2007, dia da entrada em vigor do motu proprio de Bento XVI. Condutor de homens posto ao serviço da salvação das almas, o Pe. Villa disse aos paroquianos qual era o caminho a seguir logo desde o seu primeiro sermão: consagração ao Sagrado Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria, a devoção ao Santíssimo Sacramento e a prática da confissão. O Pe. Villa está convencido de que, antes de se dar testemunho de Cristo com a palavra, é preciso começar a viver na Sua presença, à imagem da Bem-aventurada Virgem Maria e de São José.

Assim, para além da celebração de quatro missas de segunda a sexta-feira (uma pela manhã e duas à hora de almoço na forma ordinária, e uma na forma extraordinária ao fim da tarde) e de duas missas ao sábado e ao domingo (forma extraordinária às 13h00, aos sábados, e às 10h30, aos domingos), nos Santos Inocentes, hoje em dia, há também a recitação do Terço quotidiano, a adoração eucarística todas as tardes, aos dias de semana, e vésperas solenes ao domingo. Por regra, a forma extraordinária é cantada, exceto às segundas e às quintas.

II – Entrevista com o Pe.Villa

Paix liturgique – Quando é que começou a conhecer a forma extraordinária do rito romano?
Pe. Villa: Eu cresci com a liturgia tradicional antes do Concílio Vaticano II, e conhecia-a bem graças ao zelo eficaz dos redentoristas alemães que tinham a seu cargo a paróquia da minha infância. (Most Holy Redeemer, New York, NY).

Paix liturgique – Teve dificuldade para aprender a celebrá-la?
Pe. Villa: Na realidade, como desde os 13 anos que era mestre de cerimónias, não me custou muito começar a oferecer a missa na forma extraordinária. E, começando a praticar, veio-me logo tudo à memória.

Paix liturgique – O Sr. Padre é o que se costuma dizer um sacerdote in utroque usu, que celebra tanto numa como noutra das formas do Rito Romano. A sua maneira de celebrar a forma ordinária foi influenciada pela forma extraordinária?
Pe. Villa: Sempre me senti à vontade com a forma extraordinária, e, vistas as lacunas presentes no Novus Ordo, devo dizer que ela já influenciava a minha maneira de celebrar bem antes do motu proprio Summorum Pontificum. Diria mesmo que desde a minha ordenação que sempre tive tendência para me inspirar na liturgia antiga.

Paix liturgique – Como é que os seus fiéis reagiram, tanto em Yonkers como nos Santos Inocentes?
Pe. Villa: Muito bem. Em pouco tempo, a assembleia tornou-se tão numerosa como a da missa ordinária. Duas vezes por ano, também a celebrava para os alunos das escolas das redondezas, e os acólitos eram formados em ambas as formas do rito. A maior parte das vezes, celebrava a missa dialogada, em que os fiéis podem responder livremente em latim. Quanto ao coro paroquial, cantava gregoriano ou em polifonia tanto para a forma ordinária como para a extraordinária.

Paix liturgique – O que chama a atenção a quem quer que assista à missa nos Santos Inocentes, seja ao domingo ou à semana, é a diversidade dos fiéis: veem-se todas as etnias, todas as idades e todos os grupos sociais. Acolhem todos eles a forma extraordinária com o mesmo entusiasmo?
Pe. Villa: O que chama a atenção a quem quer que assista à missa nos Santos Inocentes, tem um nome: a reverência. Diria que ela foi muito bem aceite por todos, mesmo sendo aí celebradas as duas formas do rito.

Paix liturgique – A nova evangelização, que, de fato, é muitas vezes uma re-evangelização, é dos maiores desafios da Igreja de hoje : tendo em conta a localização dos Santos Inocentes, a dois passos dos divertimentos da Broadway e no coração do quarteirão industrial de Manhattan, é natural que não tenha mãos a medir?
Pe. Villa: A nova evangelização não é outra coisa senão evangelização: o ensino da fé católica. Aqui, temos a oportunidade de evangelizar por meio da liturgia, do confessionário, das devoções, do boletim paroquial e de uma boa imprensa. Vamos reativar a Legião de Maria na paróquia, e conto com ela para animar o centro móvel de informação católica, uma mini-biblioteca itinerante, além de um círculo de apologética, os Patrícios, durante o qual os fiéis têm a oportunidade para aprender e se familiarizar com a sua fé e para a aprofundar.

Paix liturgique – O Papa Francisco convida regularmente a que “saiam”: também lhe acontece ter de literalmente sair de dentro das suas paredes para atividades litúrgicas ou outras, pelas ruas de Manhattan?
Pe. Villa: Pelo que me toca, ando sempre vestido como sacerdote quando saio à rua. Isso suscita reações e até já me aconteceu ter de confessar na rua. No que toca à paróquia, participamos juntamente com outras paróquias numa iniciativa de apoio às pessoas que vivem na rua. A igreja e o átrio da paróquia, onde existe uma loja de artigos religiosos, atraem pessoas durante todo o dia. Além disso, há ainda as procissões por ocasião de grandes festas como a do Corpo de Deus ou no São Martinho.

Paix liturgique – É bem sabido que, na Europa, a secularização se apoderou da sociedade cristã. Ainda assim, será que há alguma coisa do catolicismo europeu de que sinta falta aqui, em Manhattan?
Pe. Villa: Muitas das raízes da nossa fé estão na Europa, onde há numerosos lugares santos. Para falar só da França, penso nos tantos santuários ou cidades ligadas a grandes santos: Notre-Dame; o São Sulpício; o santuário da Medalha Milagrosa ou o Sacré- Cœur em Paris, mas ainda Ars Paray-le-Monial, La Salette, Lourdes, etc.

Paix liturgique – Uma última palavra?
Pe. Villa: Creio que a forma extraordinária ainda não deixou de dar frutos à Igreja e constato que continua a desenvolver-se. Rezo para que possa continuar a influenciar a forma ordinária e, assim, possa contribuir para a libertar dos demasiados abusos que a afligem.

III – As reflexões da Paix liturgique

1) “Que quem tiver ouvidos ouça! ” Uma paróquia que, ameaçada de extinção, para se relançar, recorre à introdução da forma extraordinária. E funciona! Em Manhattan, coração da modernidade e da abundância. A isso chama-se “fazer experiência da tradição”, o que, na prática, é a única “reivindicação” manifestada, desde a reforma litúrgica, por tantos católicos, sacerdotes ou leigos, ligados à liturgia tradicional da Igreja. Infelizmente, deste lado do Atlântico, faz-se “orelhas moucas” e prefere-se fechar igrejas – se é que não se as promete aos muçulmanos! – em vez de as abrir ao povo Summorum Pontificum.

2) Este pragmatismo muito americano é o que podemos encontrar na atitude do arcebispo, o Cardeal Dolan, quem, tendo observado o novo despertar a que assistiu esta paróquia depois de aí se ter começado a praticar a forma tradicional, decide salvar a paróquia e dar-lhe um novo pároco que estivesse preparado para dar seguimento e desenvolver a vida paroquial in utroque usu. Este realismo explica a facilidade com que, do lado de lá do Atlântico, as comunidades Ecclesia Dei conseguem tantas novas paróquias e apostolados, e frequentemente após terem negociado pacificamente com o bispo do lugar um autêntico contrato com cláusulas muito concretas e que, em seguida, são escrupulosamente respeitadas por ambas as partes. É também por isso, enfim, que os seminaristas Summorum Pontificum são aceitos como tal em muitos seminários, que, por esse fato, mostram um aumento de entradas que podem fazer empalidecer de inveja os seminários europeus.

3) Depois de termos descoberto esta paróquia dos Santos Inocentes, muitos amigos que conhecem Nova Iorque, contaram-nos que também eles ficaram impressionados com a sua visita à paróquia. Com a dignidade das celebrações, o vigor das homilias, o fervor dos fiéis, mas ainda com esse espantoso “melting-pot”, esse cadinho que é uma imagem de Nova Iorque, onde os diplomatas da O.N.U. estão lado a lado com empregadas de limpeza filipinas da 5ª Avenida e famílias negras do Bronx. Se, a mais disso, levarmos em conta que foi um sacerdote indiano quem fez com que se instalasse aí a “missa em latim”, não podemos senão ficar fascinados com o caráter autenticamente católico, ou seja, universal, da missa tradicional.

Paix Liturgique


http://defensoresdasagradacruz.blogspot.com.br/

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Nobel francês respalda milagres de Lourdes


Prêmio Nobel reconhece singularidade dos milagres de Lourdes: “há curas que não estão incluídas no estado atual da ciência”.

 A cura de um grave problema de hipertensão é a matéria do 69º milagre oficial ocorrido em Lourdes.


Danila Castelli, italiana, esposa e mãe de família, viajou à França em 1989 e foi curada naquele mesmo ano, muito embora o milagre só tenha sido reconhecido por parte da Igreja em 2010. O Escritório de Constatações Médicas do Santuário de Lourdes concluiu, após várias análises, que "a senhora Castelli está curada, de maneira total e duradoura, desde a sua peregrinação a Lourdes em 1989, há 21 anos, da enfermidade que sofria, e isto sem ter relação alguma com as cirurgias ou os tratamentos"01.

Corpo milagrosamente incorrupto de Santa Bernadete
No mesmo lugar, em 1858, a Virgem Santíssima apareceu várias vezes à jovem – hoje santa – Bernadette Soubirous. Uma fonte de água na gruta das aparições tem sido instrumento da ação miraculosa de Deus até os dias de hoje. Embora mais de 7 mil curas "inexplicáveis" já tenham sido registradas, pouco menos de 70 delas foram devidamente reconhecidas pela Igreja – uma prova da prudência e da criteriosa investigação com que as autoridades eclesiásticas examinam os fatos que lhes são passados.

Particularmente extraordinário foi o milagre oficial n. 68 ocorrido em Lourdes. Em 2002, o peregrino Serge François foi misteriosamente curado de uma paralisia na perna02. Para agradecer, ele decidiu fazer o caminho de Santiago de Compostela a pé: mais de 1.500 quilômetros em agradecimento à Virgem de Lourdes. Nada mal para quem sofria com uma hérnia de disco.

Múltiplos são os relatos miraculosos acontecidos em Lourdes. No entanto, desde os primeiros fatos extraordinários que se passaram nesta pequena cidade francesa até os dias de hoje, o que não faltam são pessoas dogmaticamente céticas, acoimando os peregrinos e devotos de Nossa Senhora de "supersticiosos" e a Igreja, que deu seu aval às aparições da Virgem, de "inimiga da ciência".

Luc Montagnier, prêmio Nobel em Medicina
As palavras de uma grande personalidade científica destes tempos, no entanto, testemunham a favor de Nossa Senhora de Lourdes. "Quando um fenômeno é inexplicável, se realmente existe, não há necessidade de negar nada" – é o parecer de Luc Montagnier, prêmio Nobel em Medicina e descobridor do vírus HIV. "Nos milagres de Lourdes, assegura, há algo inexplicável."

As declarações de Montagnier foram recolhidas no livro Le Nobel et le Moine03 ["O Nobel e o Monge"], no qual o cientista conduz um diálogo com Michel Niassaut, um monge cisterciense. Em determinado momento da conversa, Montagnier reconhecer ter estudado vários milagres acontecidos em Lourdes e, mesmo sendo agnóstico, crê "de verdade que é algo inexplicável"."Reconheço que há curas que não estão incluídas no estado atual da ciência", diz.

Alexis Carrel
Luc Montagnier não é o primeiro Nobel a dar crédito a Lourdes. O famoso biologista francês Alexis Carrel (1873-1944), enviado em 1903 à cidade das aparições, a fim de desmascarar a "farsa" dos milagres, acabou convertendo-se à Igreja, após presenciar a cura de uma tuberculosa. A moribunda – que, segundo os diagnósticos da época, sem dúvida morreria – saiu curada das piscinas. A conversão de Carrel, até então naturalista e ateu, provocou um enorme rebuliço nos ambientes céticos do século XX.

As posições claramente imparciais de dois vencedores do prêmio Nobel derrubam o mito ateísta de que os milagres não são possíveis. E lembram a grande eficácia que tem, junto a Deus, a intercessão de Sua Mãe Santíssima.



Referências

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Momento Cultural - Viva el Gran Re Dom Fernando


Viva el Gran Re Dom Fernando – Carlos Verardi


Concerto "A História da Música - Do Gregoriano ao Barroco" realizado no Mosteiro de São Bento de São Paulo em 11-12-2015. Participação do Coro Gregoriano Exultet, Camerata Santa Cecília e Flammula Chorus.

 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Cardeal Burke: a Liturgia "não é invenção humana, mas um presente de Deus para nós"




Em entrevista exclusiva a Zenit, o Cardeal Burke fala da importância de estudar a liturgia, da sua relação com a causa pró-vida e dos abusos litúrgicos.
           
Os abusos litúrgicos que se seguiram às reformas do Concílio Vaticano II estão "estreitamente relacionados" com uma grande porção de corrupção moral que existe no mundo hoje, diz o cardeal Raymond Leo Burke.


Em uma entrevista exclusiva a Zenit nos bastidores de "Sacra Liturgia 2013", uma grande conferência internacional sobre liturgia ocorrida em Roma no final de junho, o norte-americano mais influente do Vaticano diz que liturgias pobres também levaram a "uma leviandade na catequese" que tem "impactado" e deixado gerações de católicos mal preparadas para lidar com os desafios de hoje.

Em uma ampla discussão, o Cardeal Burke, que é Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, também explica a importância da lei litúrgica, como o Papa Francisco aborda a liturgia e porque a sagrada liturgia é vital para a nova evangelização.

ZENIT: Eminência, quais eram suas esperanças para essa conferência?
Cardeal Burke: Minha esperança para a conferência era um retorno ao ensinamento do Concílio Ecumênico Vaticano II sobre a sagrada liturgia. Além disso, um aprofundamento e apreciação da continuidade do ensinamento praticado na sagrada liturgia durante a história da Igreja, e que também se reflete no Concílio Ecumênico Vaticano II – algo que foi obscurecido depois do Concílio. Eu acredito que, em grande parte, isso foi alcançado.

ZENIT: Nós estamos saindo desse período agora?
Cardeal Burke: Sim, já o Papa Paulo VI, depois do Concílio, de uma maneira bem intensa, e depois João Paulo II e Papa Bento XVI, trabalharam diligentemente pararestaurar a verdadeira natureza da sagrada liturgia como o presente de adoração dado por nós a Deus e que nós prestamos a Deus da maneira que Ele nos ensina a adorar. Então, não é invenção humana, mas um presente de Deus para nós.

ZENIT: Como é importante um bom entendimento da liturgia na Igreja de hoje. Como isso pode ajudar a evangelização?
Cardeal Burke: Para mim, é fundamental. É a mais importante área da catequese: entender a adoração devida a Deus. Os três primeiros mandamentos do Decálogo têm aver com o relacionamento correto com Deus, especialmente no que diz respeito à adoração. É só quando nós entendemos nossa relação com Deus na oferta da adoração que nós também entendemos a ordem correta de todos os outros relacionamentos que nós temos. Como o Papa Bento XVI disse em seu belo magistério sobre a sagrada liturgia, o qual ele expressou com tanta frequência, consiste nessa conexão entre adoração e conduta correta, adoração e lei, adoração e disciplina.

ZENIT: Alguns argumentam que a liturgia tem mais a ver com estética, e não é tão importante quanto, vamos dizer, boas obras feitas com fé. Qual a sua visão desse argumento?
Cardeal Burke: É um erro de concepção comum. Primeiro, a liturgia tem a ver com Cristo. É Cristo vivo em Sua Igreja, Cristo glorioso vindo ao nosso meio e agindo em nós por meio dos sinais sacramentais, para nos dar o presente da vida eterna para nos salvarmos. É a fonte de qualquer obra verdadeiramente caridosa que realizamos, qualquer boa obra que fazemos. Então, a pessoa cujo coração é cheio de caridade e quer fazer boas obras vai, como Madre Teresa, oferecer seu primeiro propósito à adoração de Deus, a fim de que, quando ele for oferecer caridade para as pessoas pobres ou necessitadas, seja no nível de Deus, e não em um nível humano.

ZENIT: Alguns também dizem que estar preocupado com as normas litúrgicas é ser extremado legalista, que é um sufocamento do espírito. Como uma pessoa pode responder isso? Por que devemos nos preocupar com as normas litúrgicas?
Cardeal Burke: A lei litúrgica nos disciplina, a fim de que tenhamos a liberdade de adorar a Deus; de outro modo, somos sequestrados – nós somos as vítimas ou escravos ou das nossas ideias individuais, ideias relativas disto ou daquilo, ou da comunidade ou de qualquer outra coisa. Mas a lei litúrgica salvaguarda a objetividade da adoração divina e prepara esse espaço entre nós, essa liberdade de adorar a Deus como Ele quer, para que, então, estejamos certos de não estarmos adorando a nós mesmos ou, ao mesmo tempo, como diz Aquinate, falsificando de algum modo o culto divino.

ZENIT: Ela oferece uma espécie de modelo?
Cardeal Burke: Exatamente, é o que disciplina faz em todo aspecto de nossas vidas. A menos que sejamos disciplinados, então não somos livres.

ZENIT: Como um bispo diocesano nos Estados Unidos, qual o estado em que o senhor encontrou a liturgia nas paróquias das quais o senhor esteve encarregado de cuidar? Quais são, na sua visão, as prioridades para a renovação litúrgica na vida diocesana hoje?
Cardeal Burke: Eu encontrei, é claro, vários aspectos bonitos – em ambas as dioceses nas quais servi –, como um forte senso de participação da parte dos fiéis. O que eu também encontrei foram algumas sombras, como o Papa João Paulo II as chamava: a perda da fé na Eucaristia, a perda da devoção eucarística e certos abusos litúrgicos. E, como bispo diocesano, eu precisava enfrentá-los e eu fiz o melhor que pude. Mas, ao enfrentá-los, você sempre tenta ajudar tanto o padre quanto os fiéis a entenderem as razões profundas para a disciplina da Igreja, as razões pelas quais certo abuso não somente não ajuda no culto divino, como, de fato, o bloqueia e o corrompe.

ZENIT: É dito que amar a sagrada liturgia e ser pró-vida andam juntos, que aqueles que adoram corretamente são mais dados a querer trazer crianças para o mundo. Você poderia explicar por que é assim?
Cardeal Burke: É na sagrada liturgia, acima de tudo, e particularmente na Sagrada Eucaristia, que nós olhamos para o amor que Deus tem por cada vida humana sem exceção, sem limites, começando pelo primeiro momento da concepção, porque Cristo derramou sua vida, como ele disse, por todos os homens. E lembre-se que Ele nos ensina que tudo o que tivermos feito ao menor dos nossos irmãos, nós fazemos diretamente a Ele. Em outras palavras, Ele se identifica a si mesmo no sacrifício eucarístico com cada vida humana. Então, se por um lado, a Eucaristia inspira uma grande reverência, respeito e cuidado pela vida humana, ao mesmo tempo inspira uma alegria entre aqueles que são casados de procriar, de cooperar com Deus em trazer uma nova vida humana a este mundo.

ZENIT: "Sacra Liturgia" foi sobre celebração litúrgica, mas também formação. Qual a base de formação litúrgica que precisamos em nossas paróquias, dioceses e particularmente em nossos seminários?
Cardeal Burke: A primeira importante lição que precisa ser ensinada é a de que a sagrada liturgia é uma expressão do direito divino de receber de nós o culto que lhe é devido, e que emana de quem nós somos. Nós somos criaturas de Deus e, então, o culto divino, de um modo bem particular, expressa ao mesmo tempo a infinita majestade de Deus e também nossa dignidade como as únicas criaturas na terra capazes de prestar-lhe culto, de, em outras palavras, elevar a Ele nossas mentes e corações em louvor e adoração. Essa seria a primeira lição. Depois, estudar com atenção como os ritos litúrgicos se desenvolveram ao longo dos séculos e não ver a história da Igreja como uma espécie de corrupção daqueles ritos litúrgicos. Neste sentido, a Igreja, no decorrer do tempo, chegou a um entendimento cada vez mais profundo da sagrada liturgia e expressou isso de várias formas, através das vestes sagradas, dos vasos sagrados, da arquitetura sacra – até o cuidado com os paramentos utilizados na Santa Missa. Todas essas são expressões da realidade litúrgica e devem ser cuidadosamente estudadas, e, é claro, então, deve-se estudar a relação da liturgia com os outros aspectos das nossas vidas.

ZENIT: Você é conhecido por celebrar a Forma Extraordinária do Rito Romano. Por que o Papa Bento XVI tornou-a livremente disponível e que papel isso tem na Igreja do século XXI?
Cardeal Burke: O que o Papa Bento XVI viu e experimentou, também por aqueles que vinham a ele, e que estavam muito ligados ao que chamamos hoje de Forma Extraordinária – a Missa Tradicional – foi que, nas reformas introduzidas depois do Concílio, ocorreu uma incompreensão fundamental: nomeadamente, as reformas foram feitas com a ideia de que havia uma ruptura, de que o modo como a Missa era celebrada até o tempo do Concílio era, de alguma maneira, radicalmente defeituosa e que deveria haver uma mudança violenta, uma redução nos ritos litúrgicos e até na linguagem usada, em todos os aspectos. Então, a fim de restabelecer a continuidade, o Santo Padre deu ampla possibilidade para a celebração dos ritos sagrados tal como eram celebrados até 1962, e então expressou a esperança de que através destas duas formas do mesmo rito – é tudo o mesmo rito romano, pode ser diferente, mas é a mesma Missa, o mesmo Sacramento da Penitência e assim por diante – poderia haver um mútuo enriquecimento. E essa continuidade poderia ser mais perfeitamente expressa no que alguns chamaram de "reforma da reforma".

ZENIT: Papa Francisco é uma pessoa diferente de Bento XVI em vários aspectos, mas é difícil de acreditar que há diferenças substanciais entre eles na importância da sagrada liturgia. Existem algumas diferenças?
Cardeal Burke: Eu não vejo nada disso. O Santo Padre claramente não teve a oportunidade de ensinar com autoridade sobre a sagrada liturgia, mas nas coisas que ele disse sobre a sagrada liturgia eu vejo uma perfeita continuidade com o Papa Bento XVI e com sua disciplina, e é isso o que o Papa Francisco está fazendo.

ZENIT: Essa conferência está refletindo sobre os 50 anos desde a abertura do Concílio Vaticano II, e, há 50 anos, em dezembro, essa constituição sobre a sagrada liturgia foi promulgada. Você já mencionou como a renovação litúrgica não foi como o Concílio desejava, mas como você vê o progresso das coisas no futuro? O que você prevê, especialmente entre os jovens?
Cardeal Burke: Os jovens estão voltando atrás agora e estudando ambos os textos do Concílio Ecumênico Vaticano II com os seus sérios textos sobre teologia litúrgica que permanecem válidos ainda hoje. Eles estão estudando os ritos como eles eram celebrados, se esforçando para entender o significado e vários elementos do dito e há um grande entusiasmo e interesse nisso. Tudo isso, eu acredito, é direcionado a uma experiência mais intensa da presença de Deus conosco na sagrada liturgia. Esse elemento transcendente foi mais tristemente perdido quando a reforma após o Concílio foi, por assim dizer, enviesada e manipulada para outros propósitos – aquele senso de transcendência da ação de Cristo por meio dos sacramentos.

ZENIT: Isso reflete a perda do sagrado na sociedade como um todo?
Cardeal Burke: Reflete, de fato. Para mim, não há dúvidas de que os abusos na sagrada liturgia, a redução da sagrada liturgia a uma espécie de atividade humana, está estreitamente relacionada a muita corrupção moral e a uma leviandade na catequese que tem impactado e deixado gerações de católicos mal preparadas para lidar com os desafios do nosso tempo. Você pode ver isso em toda a gama da vida da Igreja.

ZENIT: O Papa Bento disse certa vez que as crises que vemos na sociedade hoje podem ser associadas aos problemas na liturgia.
Cardeal Burke: Sim, ele estava convencido disso e eu posso dizer que também estou. Era, é claro, mais importante que ele estivesse convencido disso, mas eu acredito que ele estava absolutamente correto.

Fonte: Zenit | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere