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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Bartolucci + 1 ano – RIP

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, em 8 de dezembro de 2010, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.


REQUIEM aeternam dona ei, Domine, et lux perpetua luceat ei.



“Quem não ama a beleza, não ama a Deus”
de Domenico Bartolucci
[...] No meu sacerdócio, eu não fui um pregador, um teólogo, nem um pastor de uma diocese e nunca pronunciei grandes discursos, todavia, tenho procurado frutificar os dons que o Senhor me deu e o fiz através da música sacra, uma nobre arte capaz de penetrar efetivamente a alma dos fiéis, convidando-os à conversão, à alegria, à oração.
Particularmente na civilização ocidental, a música é a arte que, mais do que qualquer outra, deve agradecer à Igreja. Nela, realmente, nasceu, cresceu e se desenvolveu. Como tive a oportunidade de dizer já na ocasião do concerto oferecido ao Papa na Capela Sistina, os coros representaram o berço da arte musical. A própria Igreja dos primeiros séculos, tão logo teve a oportunidade de dar glória ao Senhor publicamente, empenhou-se na criação das “scholae cantorum”, que, gradualmente, ao longo dos séculos, nos deixaram em herança o patrimônio do canto sacro, o canto gregoriano e a polifonia, instrumentos autênticos de pregação, que freqüentemente, por causa de sua intensidade, conseguem fazer perceber a mensagem contida na Palavra de Deus.
Este patrimônio que hoje devemos necessariamente recuperar e que, infelizmente, tem sido negligenciado, nunca teve a intenção de se estabelecer como um “ornamento” [ndt: no sentido de adorno, enfeite] da celebração litúrgica. O cantor, como ensinaram os nossos mestres do passado, é simplesmente um ministro que exprime e torna vivo, da melhor maneira possível, o texto sagrado e a palavra de Deus. Muito freqüentemente nós, músicos da Igreja, temos sido acusados de querer impedir a participação dos fiéis nos ritos sagrados e eu mesmo, como diretor da Capela Sistina, tive de enfrentar momentos difíceis nos quais a Sagrada Liturgia sofria banalizações e experimentações áridas. Hoje, mais do que nunca, devemos assumir a responsabilidade de analisar criticamente o quanto foi feito e devemos ter a coragem de reafirmar a importância das nossas tradições de beleza que exaltam e dão glória a Deus e que são também eficazes meios de conversão. Recordo-me, por ocasião dos concertos da Capela Sistina, o entusiasmo do povo, mesmo de países como Turquia e Japão, onde foram registradas diversas conversões ao catolicismo. “Quem não ama a beleza, não ama a Deus!”, disse o Santo Padre em uma das suas homilias. Precisamos, portanto, saber como nos reapropriarmos de nós mesmos e de quanto a tradição eclesial nos deu.
Como escreveu Bento XVI às vésperas da assembléia geral dos bispos italianos reunida em Assis, em novembro passado: “Todo verdadeiro reformador, na verdade, é um obediente à fé: não se move de forma arbitrária, nem arroga para si qualquer poder discricionário sobre o rito; não é o dono, mas o guardião do tesouro instituído pelo Senhor e a nós confiado”.
Desejando seguir essa descrição, podemos olhar precisamente para a figura de Maria: ela foi a primeira guardiã do Verbo Encarnado, a serva do Senhor que soube agir sempre de acordo com a sua vontade.
Como Maria, também nós somos chamados a ser obedientes na fé, sem nos mover de forma arbitrária, mas sabendo acolher o que nos foi entregue. Esta é a nossa força, esta é a força sempre nova do cristão que, como São Paulo, transmite aquilo que recebeu da fonte da graça que, para ele, assim como para nós, é o encontro com o Senhor.
Também por isso, encontrar-me aqui, na igreja da Trinità dei Pellegrini, onde é vivo o empenho em favor da difusão da liturgia tradicional, é para mim motivo de alegria e esperança que me faz tocar com a mão alguns frutos que se seguiram à publicação do motu proprio “Summorum Pontificum”.
Em um momento difícil, somos todos chamados em nosso serviço a nos unirmos ao sucessor de Pedro: como Pedro, também nós devemos nos converter ao Senhor crucificado e ressuscitado, não nos desanimando nunca diante da realidade da cruz e com a certeza de tomar parte um dia de sua própria ressurreição.
Esse, antes do nosso, foi o caminho de Maria, um caminho que a Igreja procurou propor como modelo e que mesmo os fiéis quiseram exaltar e exprimir na riquíssima devoção popular. Também eu, entre as músicas compostas desde quando era um jovem seminarista, tenho dedicado grande parte a Maria. A festa da Imaculada Conceição me faz pensar em tantas músicas escritas em honra a Nossa Senhora: missas, laudes, motetos, magnificat, Stabat Mater, mas me faz pensar especialmente nas numerosas antífonas marianas que o povo soube fazer suas e que cantava em honra à Mãe celeste, encontrando nela o ícone da fé. [...]



Sermão do Cardeal Burke - Peregrinação do Summorum Pontificum

Transcrevemos a seguir o sermão proferido pelo Cardeal Burke na Missa realizada por ocasião da peregrinação do Summorum Pontificum

Vós partistes de vossa casa e de vossa atividade ordinária para vir em peregrinação de um modo extraordinário até a Sé de Pedro e esperar na gratidão do Senhor pelo dom mais belo que nos dá na Igreja o qual é a sagrada liturgia. É o sucessor de S Pedro que tem a responsabilidade de salvaguardar e de promover este dom para o rebanho do Senhor disperso em todo o mundo. Agradecei ao Senhor de modo particular pela beleza perene da tradicional forma dos ritos litúrgicos da Igreja latina, pela riqueza da Liturgia Romana que o papa Bento XVI com a carta apostólica Summorum Pontificum, dada Motu próprio de 07/07/2007, tornou-a mais acessível à Igreja universal. Com a missa pontifical celebrada, segundo a forma extraordinária do rito romano, nesta magnifica basílica, erigida sobre o túmulo de São Pedro, a vossa peregrinação atinge o seu cume. Chamando à memória São Pedro e implorando a sua intercessão, honremos o particular zelo de seus sucessores, expresso no modo mais alto e completo na custódia e na promoção da sacra liturgia .

sábado, 1 de novembro de 2014

A rebeldia de um monge

Se a rebelião de Lutero conseguiu dividir a cristandade, a providência de Deus foi muito mais eficaz em Seus santos.
Tratado o doloroso tema da separação entre Cristo e a Igreja ( ver aqui), que não poucas pessoas realizam em nossos tempos, é hora de voltarmos o olhar ao século XVI, quando um monge agostiniano se tornou pioneiro em talhar um “cristianismo” à sua própria medida, desvinculado da autoridade do Papa e da mediação sacerdotal, querida pelo próprio Senhor.
Martinho Lutero, nascido em 1483, na Saxônia, era um rapaz de inteligência aguçada, característica que seus pais e professores identificaram muito cedo, quando ele recebeu o trivium, em Mansfeld. Foi com 21 anos, mal acabara de começar os seus estudos de direito, que o rapaz decidiu fazer-se religioso. Em viagem a Erfurt, onde frequentava a universidade, Lutero foi surpreendido por uma tempestade bastante violenta. Em meio aos raios e trovões que o assustavam, ele invocou o auxílio de Santa Ana e fez uma promessa irrefletida: “Se me ajudares, far-me-ei monge”.
De fato, apenas duas semanas depois do incidente, ele batia à porta do convento dos eremitas de Santo Agostinho. Levava uma vida de disciplina e oração, mas, aflito por escrúpulos e por uma ideia muito severa de Deus, não conseguia obter a paz da alma. Escreve Daniel-Rops que “Lutero era um ser intensamente dominado pelo sentimento trágico do pecado” [1]. A sua luta, mais que contra a sensualidade da carne, era contra a soberba da vida. “Os pensamentos hediondos, o ódio a Deus, a blasfêmia, o desespero, eis as grandes tentações”, escrevia [2].
Um versículo bíblico em particular inquietava o monge da Saxônia: “Nele [no evangelho] se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” [3]. Por muito tempo, Lutero não conseguia ver na “justiça de Deus” senão a justitia puniens, a ira divina pelas faltas do homem. Até que ele descobre que Deus não apenas julga o homem, como também o justifica. Essa visão – que, até aqui, nada tem de errada – levou-o a formular, no entanto, uma nova doutrina. Para responder ao que o atormentava dia e noite, Lutero firma a salvação somente pela fé, eliminando a necessidade da penitência e do combate contra o pecado e deturpando toda a doutrina da graça: se o são ensinamento católico lembrava que a amizade de Deus não pode conviver com o pecado, a sua heresia concebia uma graça pela qual “todas as manchas da alma são como que cobertas por um manto de luz” [4]. O cristianismo deixava de ser a religião da santidade para se transformar num disfarce sutil, uma máscara para cobrir as faltas do homem.
Com o passar do tempo – e o advento da famosa e difícil questão das indulgências –, Lutero uniu à sua sola fide a rejeição do poder pontifício e, em 1520, no auge de sua rebeldia, o livre exame, o pedido de extinção do celibato eclesiástico e a crítica aos próprios Sacramentos, dos quais ele só reconhecia a validade de três. Em 1521, estava assinada a sua excomunhão, mas a cristandade já estava dividida.
Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar a gravidade do ato de Lutero, um ato de desobediência que não pode ser desculpado por nenhuma contingência histórica. Ainda que muitas vezes os erros dos membros da Igreja gritem – como gritavam no século XVI e gritam também hoje –, a sua santidade, forjada com o sangue do Cordeiro, fala muito mais alto. Por isso, não se pode olhar para a rebelião dos chamados “reformadores” senão com desconfiança e desaprovação.
Só que, ao mesmo tempo, “como Deus é o criador soberanamente bom das naturezas boas, também é o ordenador soberanamente justo das vontades más, de tal forma que, quando usam mal das naturezas boas, Ele faz bom uso até mesmo das vontades más” [5]. Da vontade má de Lutero, que cedeu às “grandes tentações”, caindo no pecado da soberba, o Senhor suscitou a Companhia de Jesus, na qual floresceram homens da estirpe de Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e São José de Anchieta, apóstolo do Brasil; suscitou almas como Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, que levaram a cabo a reforma do Carmelo; suscitou São João de Ávila, São Filipe Néri, São Carlos Borromeu e outros numerosos homens de fibra, que podem com razão ser chamados de “reformadores”.
É nas grandes provações que agitam a barca da Igreja que se revelam os fiéis. Se a rebelião de Lutero conseguiu dividir a cristandade, a providência de Deus foi muito mais eficaz em Seus santos.
Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
1.      Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo. p. 273
2.      Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo. p. 274
3.      Rm 1, 17
4.      Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo. p. 277
 
5.      Santo Agostinho, De Civitate Dei, XI, 17
6.      1 Cor 11, 19